A nossa Ordem Basiliana de São Josafat (OSBM), como uma família de pessoas consagradas do sexo masculino, veio para o Brasil na metade do ano de 1897. Até hoje empenha-se em pregar missões, catequizar, administrar sacramentos, organizar comunidades, construir igrejas, escolas, centros culturais em várias comunidades ucranianas católicas nos Estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Contamos com quase uma centena de membros, temos a batina com o colarinho branco um pouco mais aberto, como veste oficial. Por nos consagrarmos antes de receber o sacerdócio, nos distinguimos do clero diocesano que é submetido diretamente ao bispo, por vivermos comunitariamente, termos as nossas casas próprias e superiores eleitos nas casas, tanto no Brasil, outros quatorze países como na direção geral da OSBM em Roma. Os superiores nos dirigem de acordo com o Estatuto de toda a Ordem Basiliana de São Josafat, aprovado pelo Vaticano. A diferença dos padres basilianos em relação ao padres diocesanos é que nós, basilianos, vivemos em comunidades e professamos os três votos: pobreza, castidade e obediência; temos em nossa vida de comunidades uma autoridade própria no que diz respeito a assuntos internos. Já, no que se refere ao atendimento de igrejas, os nossos superiores eleitos pedem autorização formal ao bispo para que determinado padre basiliano possa celebrar em determinada paróquia ou propõe algum membro para pároco, mas sempre com o consenso do nosso Conselho Provincial.

Trata-se de uma instituição religiosa que no Brasil organizou-se a duras custas. Foi iniciadora de grande parte daquilo que hoje existe em termos de comunidades com patrimônio eclesiástico da Metropolia e da Eparquia. Investiu, formou e cedeu à Igreja cinco bispos.  Auxilia com inúmeros trabalhos nos campos religioso, cultural, acadêmico e administrativo, além ocupar-se com trabalhos de auto sustento da própria comunidade dos basilianos, não dependendo exclusivamente da ajuda do povo.

Ao celebrarmos no dia 17/09/2017 esse penúltimo evento do ano jubilar por ocasião dos 400 anos, desde quando houve a reforma da OSBM, promovida por São Josafat e pelo Metropolita José Benjamin Rutskei em 1617, bem como os 120 anos de sua missão no Brasil, recordamos o ensinamento da Carta Apostólica do Papa Francisco, que reza: 1) olhar com gratidão o passado; 2) viver com paixão o presente; e, 3) abraçar com esperança o futuro que envolve  por um lado o envelhecimento de membros e por outro a diminuição de vocações. De qualquer modo, a obra que se faz é de Deus, mas humanamente depende do “sim” dado pelos jovens e da organização desse “sim” dentro das nossas estruturas internas.

Antes de concluirmos as nossas celebrações jubilares no próximo dia 12 de novembro de 2017 em Prudentópolis, relendo as crônicas dos nossos padres missionários e das nossas casas no Brasil, fazendo uma retrospectiva desses últimos 120 anos de região em região, comunidade em comunidade, onde hoje é estabelecida a Metropolia e a Eparquia e por onde os padres missionários basilianos perambulavam à procura do povo de Deus, basicamente, se percebe que com exceção das comunidades mais recentes atendidas e/ou iniciadas junto ao povo por iniciativa dos padres diocesanos, a maioria delas teve a missão de algum basiliano ou iniciativa de algum basiliano. Vejamos por exemplo a região de Curitiba, onde inicialmente a partir de 1902 celebrava-se a Divina Liturgia (Missa) na primeira igrejinha da Martim Afonso, na comunidade de Colônia Marcelino e na comunidade de Colônia Ipiranga, próxima ao distrito de Guajuvira em Araucária, vindos de Prudentópolis ou Iracema (Itaiópolis SC). Eram tempos difíceis, quando o então bispo latino da Diocese de Curitiba por razões desconhecidas dificultava dar autorização para que os missionários basilianos pudessem celebrar os sacramentos. Além disso, o vagaroso desenvolvimento da comunidade ucraniana na capital, a começar pela região da igrejinha da Martim Afonso, depois a partir de 1948 na região da atual catedral da Metropolia, mais tarde a região do bairro Pinheirinho, Boqueirão, Abranches e São José dos Pinhais. Imaginemos hoje se não tivéssemos esses missionários aventureiros, onde estaria a igreja da Rua Martim Afonso, a catedral e outras comunidades acima citadas? Tomemos outros recantos da região sul do Brasil e São Paulo, como o início da antiga matriz e comunidade em União da Vitória-Porto União, Cruz Machado, região de Pato Branco, Cascavel, Roncador, Pitanga, Guarapuava, Campo Mourão e Irati; regiões como Itaiópolis, Papanduva e Santa Terezinha em Santa Catarina, e em São Paulo, onde existe a igreja e comunidade.  Nem tudo foram maravilhas, houveram conflitos e muitos debates, mas a intenção foi promissora, porque havia um plano a ser executado que era aquele de não abandonar o nosso povo de forma alguma. Onde quer que existisse se fizessem tentativas de reuni-lo em comunidades, onde as famílias reciprocamente na boa convivência ou nem tanto se fortaleceriam.

Recordar todo esse passado para nós, basilianos, é agradecer àqueles corajosos missionários, que em tempos bem mais difíceis formaram comunidades e deram orientação e conforto espiritual para tantas famílias e comunidades pelo Brasil afora. Esperamos que a memória e o trabalho pastoral deles não seja esquecido, muito menos ignorado. O jubileu dos 400 e 120 anos é também razão para não sermos omissos pela história de vida das famílias que caminhavam junto conosco, trabalhavam duro, planejavam, construíam igrejas, casas, escolas e organizavam comunidades com os padres, como: Silvestre Kizema, Antônio Martinhuk, Clemente Bjuchovskyi, Marquiano Szkirpan, Rafael Krynyckyi, Benedito Melnik, Irenarco Malaniak, Nicolau Ivaniv, Pedro Baltzar, Marciano Pensak e Atanásio Kupicki (ainda entre nós), Josafat Roga, Cristóforo Myskiv, Nicolau Lysko, Tarás Olinek e dezenas de outros. O jubileu é para nós ocasião para não ignorarmos a vida dos padres missionários que dedicaram os seus dons e esforços na Ucrânia, Casaquistão, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Portugal, etc. Todos eles fizeram parte das nossas fileiras, são nossos irmãos e temos o dever de defender a sua honra. Porém, há também de se lamentar que modernos e obtusos “historiadores” de ocasião consideram que tudo isso foi pura “política” e não é preciso lembrar, antes ignorar, omitir, encobrir os dados e fatos ou simplesmente esquecer o passado. Mas e se não fossem eles, o que seria do presente? Pensemos!

Avaliação do que, como e onde foi celebrado o jubileu até o momento

Diante de todo o histórico de aporte com pessoas, tempo, recursos, meios, etc., que a Ordem de São Basílio Magno ou Ordem Basiliana de São Josafat (OSBM) dedicou até o momento no Brasil, as celebrações do jubileu como momento solene e pontifical de oração da Divina Liturgia, deve estar sempre em primeiro lugar. Isso, porque a Providência Divina por meio dos missionários é que foi ao encontro dos imigrantes e descendentes ucranianos, que a primeiro momento estavam “como ovelha sem pastor” (Mc 6,34).  A oração é o melhor meio para retribuirmos a Deus pelas graças, superação, conquistas e força nas derrotas ou perdas. Por isso, o nosso tempo do jubileu não visa grandiosas festas, também porque as condições econômicas do nosso Brasil não favorecem, mas pela oração espera-se compreender a fundo, aquilo que alimentou a alma do nosso povo e dos nossos missionários no passado e que deve alimentar no presente e futuro.

Para as celebrações litúrgicas solenes, escolhemos cinco paróquias a fim de lembrar com o povo de Deus da história da Ordem Basiliana de São Josafat. As paróquias escolhidas foram: Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Ivaí), Paróquia Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo (Ponta Grossa), Paróquia Sagrada Família (Iracema, Itaiópolis-SC) e Paróquia São Josafat (Prudentópolis). São paróquias históricas e que, com exceção da paróquia de Ivaí que entre 1911-1931 fora atendida pelo clero diocesano, todas elas fazem parte de uma estrutura tanto eclesial, como estrutura da nossa vida de religiosos consagrados (padres e irmãos da OSBM).

Falhas percebidas e ocasiões perdidas às vésperas da conclusão do nosso jubileu OSBM

  1. Para o maior e melhor conhecimento do povo de Deus, tanto na Metropolia como na Eparquia, nós, basilianos, falhamos ao não disponibilizar publicamente a tempo toda a atividade descrita em nossas crônicas. E são tantas comunidades e famílias que encontram-se descritas nos interessantíssimos diários dos padres missionários basilianos. Comunidades que hoje são atendidas também pelo clero diocesano e que talvez nem sabem e muito menos lembraram nesse ano pela alma do falecido missionário fundador, que junto com os seus antepassados, iniciaram uma bela história. Eis porque perdeu-se a ocasião neste ano de 2017 em reler a história das origens de grande parte dessas comunidades ucranianas pelo Brasil afora.
  2. A Metropolia e a Eparquia perderam uma ocasião áurea para incentivar vocações missionárias. Haja vistas que desde o ido ano de 1897, a maioria das missões em nossas paróquias e comunidades foram pregadas por algum ou alguns missionários basilianos. Por outro lado, a Igreja em seu núcleo fundante é obrigatoriamente e deve ser missionária, caso contrário não é Igreja. Esse aspecto missionário não é exclusividade dos padres basilianos, mas de toda a Igreja que está aí para levar a Boa Nova de Cristo. Portanto, é tempo de refletir para que no futuramente não tenhamos falta de missionários por falta do nosso incentivo ou corrermos à procura de missionários alheios ao rito em que se celebra.
  3. Com a priorização de aspectos mais burocráticos do que pastorais, há na Igreja Católica Ucraniana no Brasil composta pela Metropolia e pela Eparquia, uma iminente necessidade em mais esclarecer e menos confundir. Exemplo disso, é que algumas lideranças religiosas alegam que para ser padre diocesano estuda dois anos a menos do que um padre basiliano e que do mesmo modo será ordenado padre. Enfim, criam confusão como fosse facilitar e no fim todos perdem e ganha a ignorância e a estupidez, inclusive perde o jovem vocacionado que talvez poderia ser um missionário diferenciado. A realidade é que padre diocesano é exclusivamente à disposição do bispo e sua diocese ou eparquia, enquanto nós, basilianos, embora a serviço contínuo da Igreja, porém o nosso campo de atividade é muito mais amplo e não se reduz a uma diocese, mas de acordo com a decisão dos nossos superiores somos num dia destinados para o Brasil e no outro ano podem nos destinar para missão no exterior. Essa nossa missão não é só trabalhar em paróquia, mas pode ser pregar missões, formar novos membros, trabalhar com administração e mil e tantas coisas.
  4. Houve pouco interesse na grande parte das nossas paróquias e comunidades ucranianas católicas do Brasil pelo que significa um jubileu pertinho de nós e com Indulgência Plenária concedida pelo Papa Francisco. Perdeu-se a ocasião também para a grande parte do nosso povo, que poderia fazer dias de renovação espiritual com confissões, comunhões e palestras, que esclarecessem a importância do momento e da herança que um dia foi carregada a duras custas no lombo do cavalo pelos missionários desbravadores ao encontro do povo espalhado pelos mais diversos rincões.
  5. Em Curitiba, a celebração da Divina Liturgia, como de praxe, foi irretocável, mas me coloquei no lugar de um expectador alheio ao que acontecia e imagino que ao ouvir algum discurso, ele tenha feito as suas conclusões do seguinte modo: a Igreja Católica Ucraniana em Curitiba e região caiu pronta em 2017 como um belo “ovo de Páscoa” e no momento lembraram de uns tais padres e irmãos basilianos, que pelo visto vieram em 1897 e desde aquele ano estavam trancafiados em suas casinholas, elucubrando temas filosóficos e teológicos, fugindo do contato com o povo e pouco tem a ver com o que está aí hoje. Assim, como diz o caipira, “é para acabar com a palha boa…”. Agradecimento é importante, mas antes de agradecer é preciso em poucas e claras palavras tiradas dos fatos da história dizer exatamente pelo que se agradece, isso porque a juventude de hoje e do amanhã precisa saber como foram as coisas e poderia contribuir em suas pesquisas com avaliações mais científicas a respeito do passado para a memória no nosso futuro.

Nosso futuro

Não restam dúvidas que ao finalizar as celebrações do nosso jubileu em novembro próximo, é mais do que urgente repensarmos o nosso ser e nosso existir como foi até hoje e como será, rever o modo do nosso funcionamento como comunidade a serviço, reavaliarmos os nossos trabalhos, fazer um replanejamento e estabelecer critérios mais seguros, se necessário racionais e menos ingênuos a médio-longo prazo,  senão o desgaste das pessoas e energias vai se acumulando à medida em que nos ocupamos com  trabalhos insignificantes por aí afora, enquanto os nossos compromissos exigem cada vez maior preparação e atualização, a fim de sermos capazes de enfrentar os novos desafios do dia a dia. Para isso, é necessária uma reorganização geral de acordo com o que propõe o nosso Estatuto da OSBM e o Diretório da Província São José dos Padres e Irmãos Basilianos no Brasil.

Pe. Elias Marinhuk, OSBM
Vice Provincial, Secretário e Arquivista da OSBM – Brasil