No séc. XVII o Mosteiro de Pochaiv pertenceu aos greco-católicos ucranianos e foi o centro do movimento ucraniano

É claro que agora no Моsteiro da Assunção de Pochaiv não será dito que no século XVIII  ele foi talvez o centro mais importante do movimento cultural ucraniano e que foi aqui que apareceram as primeiras gravuras cirílicas na língua ucraniana falada. E, em geral, os habitantes atuais de Pochaiv estão tentando falar menos sobre aqueles tempos “desconfortáveis”. Porque agora este mosteiro é um dos principais centros de propaganda do “mundo russo” no oeste da Ucrânia. Basta ouvir o que lhe é dito durante as excursões pelo mosteiro ou que literatura é vendida na “loja de ícones” local.

Mosteiro de Pochaiv no período greco-católico

A história deste mosteiro não é assim tão simples. Primeiro por ter mudado sua afiliação confessional, depois tornou-se o centro de uma sociedade de monarquistas ultraconservadores russos (чорносотенного руху) e um lugar onde havia uma luta ativa pela “ucrainização” da Igreja Ortodoxa. Podemos conversar muito sobre isso. É uma pena, mas hoje não temos um livro relativamente objetivo e volumoso sobre a história deste mosteiro. Porque a literatura que você pode comprar dentro ou perto do Pochaiv é extremamente tendenciosa, onde há muitas “manchas brancas”. E talvez a maioria dessas “manchas” se refira ao século XVIII, quando o mosteiro pertencia aos gregos católicos, os padres basilianos. Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre uma dessas “manchas brancas”.

Mosteiro de Pochaiv em 1791. Obra do artista Zygmunt Vogel.

 

Mosteiro de Pochaiv em 1791 (visto de outro ângulo da imagem anterior). Obra do artista Zygmunt Vogel.
Mykola Potocki (1707/1708–1782) – benfeitor que financiou a reconstrução da Igreja e do Mosteiro de Pochaiv, que na época pertencia aos greco-católicos.

O período greco-católico na história do Mosteiro de Pochaiv remonta a 1713–1832. Foi então que este mosteiro se destacou entre os numerosos mosteiros da Volínia e tornou-se conhecido não só no ocidente, mas também na Ucrânia em geral como um local de peregrinação em massa de fiéis. No decorrer dos anos 20/40 do séc. XVIII, foram construídos aqui edifícios com celas de dois andares com um refeitório. E em 1771-1791 a igreja principal do mosteiro foi Assunção, cuja construção foi  financiada pelo benfeirtor Mykola Potocki, que se tornou monge do mosteiro de Pochaiv.

Em 8 de setembro de 1773, o ícone da Mãe de Deus de Pochaiv foi coroado, pelo fato do Papa Clemente XIV reconhecê-lo como milagroso. Depois, este santuário tornou-se conhecido na Ucrânia.

Aparecimento da Mãe de Deus no Monte Pochaiv durante a invasão turca no dia 23 de julho de 1675 (pintura de 1800).

 

Gravura da Santíssima Mãe de Deus e do Mosteiro de Pochaiv, 1773.

A partir de 1730, a tipografia dos Padres Basilianos começou a funcionar no mosteiro de Pochaiv. Os pesquisadores estimam que entre 1734 e 1800, quando era mais ativo, 394 títulos de livros foram publicados em eslavo eclesiástico, ucraniano, polonês e latim.

Vista do Mosteiro de Pochaiv, 1794.

 

Mosteiro de Pochaiv no século XVIII. Sob esta litografia, publicada antes de 1900, a legenda diz: “Pintado da natureza em uma pedra por J. Sobkevich”.

Basilianos de Pochaiv publicam livros na língua ucraniana falada

Os livros da gráfica de Pochaiv foram distribuídos em toda a Ucrânia e até no exterior. Claro, uma parte significativa dessas publicações era literatura litúrgica impressa na língua eslava da Igreja. Estes são: a Bíblia, os Evangelhos, o livro das epístolas, o Triódio, o Livro de Orações, o Octóico e assim por diante.

Livro litúrgico publicado em Pochaiv, em 1747. Esta cópia do livro está armazenada em Ostrozim.

Juntamente com isso, várias literaturas para os leigos foram publicadas no mosteiro de Pochaiv. Trata-se de “Teologia do Ensino Moral” (sete edições desde 1751), “Palavra ao povo católico” (três edições – 1756, 1768, 1778), “Breves perguntas e respostas por meio do catecismo” (1776), “A doutrina dos ritos cristãos” (1779), “A vida de Cristo” (1783),  “Teologia” (quatro edições – 1790, 1791, 1805, 1821), “Ensinos paroquiais” (1792), “Ensinos cristãos” (1821), etc. Literatura educacional para escolas também foi publicada aqui. Portanto, algumas de suas publicações foram publicadas em uma linguagem próxima ao coloquial. Claro, não foi fácil. Afinal, a língua eslava da Igreja continuou sendo a língua litúrgica na Igreja Greco-Católica. Nela estavam às orientações para os livros. Foi criada também a chamada linguagem literária, que tinha muito eslavo eclesiástico, mas que também combinava elementos coloquiais. Essa língua literária rutena (na verdade, ucraniana) serviu de base para a língua literária russa.  

Em Pochaiv, no século XVIII, entretanto, vemos uma tentativa de se afastar tanto das línguas eslavas da Igreja quanto das línguas literárias ucranianas. Foi um caminho de tentativa e erro. Afinal, naquela época não existia um padrão literário da língua ucraniana baseado no povo. No entanto, os monges basilianos de Pochaiv seguiram por esse caminho. A primeira publicação feita no mosteiro onde foi realmente sentida a linguagem popular, foi o livro: “Sermões para o povo” (Народовіщаніє). Embora muitos fragmentos sejam apresentados aqui na língua eslava da Igreja, a linguagem mais próxima possível do vernáculo foi usada para explicar as doutrinas. No prefácio da publicação deste livro em 1768, o Superior do Mosteiro da Epifania em Kreménets, Ieronim Kalentinskyj apontou a necessidade de uma apresentação clara das verdades da fé, enfatizando que o ensino dos fiéis não é para mostrar as habilidades retóricas do padre, mas para ser útil para salvar as almas daqueles que escutam. Diz ele: “Ao povo de Deus todo pregador cristão é estimulado e obrigado, não por palavras retóricas astutas mas por conversas simples, pregar sobre as obrigações cristãs, sobre a vontade e os mandamentos”.

Outro livro, onde o elemento vernáculo é perceptível, foi também o já citado livro “Ensinos Paroquiais”. Isso não é por acaso. Afinal, esta publicação também pretendia explicar a posição da fé. E era desejável fazê-lo em linguagem simples.

Algumas obras próximas da linguagem coloquial também podiam ser encontradas no hinário de Pochaiv (Богогласнику). Esta edição continha 248 poemas e canções religiosas (com notas). Uma pequena proporção deles era em polonês (33) e latim (3). A maioria dos outros poemas foi escrita na língua literária ucraniana da época, e a linguagem de alguns deles se aproximava do vernáculo.

Uma das páginas do Hinário publicado em 1790 na gráfica do Mosteiro de Pochaiv, que na época pertencia à Igreja Greco-Católica. É a primeira antologia musical de canções espirituais dos séculos XVII a XVIII na Ucrânia.

 

Alguns fragmentos, inseridos em uma linguagem próxima ao vernáculo, são encontrados em outras edições do Mosteiro de Pochaiv. Em outras palavras, podemos dizer que na então Igreja Greco-Católica (não sem a influência dos Basilianos de Pochaiv) a língua ucraniana coloquial começou a se estabelecer.

Joanna Getka, pesquisadora das obras de Pochaiv, aponta: “Em particular, às publicações mostram que os monges entenderam perfeitamente bem que a linguagem era de suma importância para este processo. Neste contexto, suas atividades têm uma dimensão civilizacional: graças a uma compreensão profunda das realidades locais, atendendo às necessidades dos leitores locais, os Basilianos criaram o terreno para futuros movimentos nacionais”. Infelizmente, essas tendências não se desenvolveram. E tinha a ver com a mudança das realidades políticas. Após a divisão da comunidade polonesa-lituana no final do século ХVIII, Pochaiv tornou-se parte do Império Russo, que governava a Ortodoxia. Isso forçou os Basilianos de Pochaiv a restringir um pouco suas atividades, em particular no campo da impressão de livros.

 Depois da revolta polonesa de novembro de 1830-1831, as autoridades imperiais russas decidiram tirar o Mosteiro de Pochaiv dos greco-católicos e dos Basilianos e dá-lo aos ortodoxos. Monges que não cultivavam nenhum tipo de revolta e serviam fielmente ao “rei ortodoxo” foram especialmente trazidos para cá.

Taras Shevchenko “Mosteiro de Pochaiv visto do Sul” (aquarela), 1846.

 

Tarás Shevchenko “Mosteiro de Pochaiv visto do Oriente” (aquarela), 1846.

 

Tarás Shevchenko “Vista do bairro desde o terraço do Mosteiro de Pochaiv” (aquarela), 1846.

 

Tarás Shevchenko “Catedral do Mosteiro de Pochaiv” (interior), aquarela, 1846.

A tradução foi permitida por Petro Kraliuk – Presidente do Conselho Acadêmico da Universidade Nacional de Óstrov, professor de Ciência e Tecnologia da Ucrânia. Clique aqui para ler a matéria original.

Tradução: Pe. Estefano Wonsik, OSBM.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *