A IMPRENSA BASILIANA: Dos primórdios ao apostolado da comunicação nos dias atuais

Por muitos séculos, a Igreja escreveu, imprimiu e publicou não apenas para conservar a memória, mas para anunciar a fé. Entre os filhos de São Basílio Magno, a palavra escrita tornou-se também uma forma de missão. Dos antigos mosteiros da tradição de Kyiv aos centros tipográficos de Pochaiv, Vilnius e Zhovkva; das primeiras páginas impressas em ucraniano no Brasil às páginas do Prácia e do Missionar; das antigas máquinas tipográficas às atuais plataformas digitais, existe uma mesma convicção: aquilo que é colocado nas mãos das pessoas pode também tocar suas mentes, formar suas consciências e conduzi-las ao encontro com Deus.

 

        Folha de rosto da Mineia Geral (Минея Общая),

     impressa na Tipografia da Lavra de Pochaiv, provavelmente em 1772.

O título informa tratar-se de uma coleção de ofícios comuns para um ou vários santos. A edição foi realizada com a bênção de Dom Silvestre Lubieniecki-Rudnicki, bispo de Lutsk e Ostroh, evidenciando a estreita relação entre a produção tipográfica, a vida litúrgica e a autoridade eclesiástica. A ornamentação vegetal da folha de rosto constitui também testemunho da qualidade artística dos antigos impressos basilianos.

 

A história da imprensa basiliana não pode ser compreendida simplesmente como a história de máquinas, livros, jornais e gráficas. Ela é, antes de tudo, a história de uma forma particular de evangelização. Para os monges basilianos, publicar nunca significou apenas produzir material impresso. Significou levar uma palavra ao encontro de alguém; colocar a doutrina cristã ao alcance das famílias; conservar a língua e a cultura de um povo; transmitir a memória da Igreja; formar consciências; fortalecer comunidades dispersas e, sobretudo, fazer com que a mensagem do Evangelho ultrapassasse as paredes dos mosteiros e das igrejas.

Essa compreensão explica por que a atividade editorial aparece tão cedo na história moderna do monaquismo basiliano. O próprio Ordem de São Basílio Magno reconhece a publicação e a impressão como uma das expressões históricas de seu carisma. A tradição editorial remonta aos séculos XVI e XVII e encontrou importantes centros em mosteiros como Pochaiv. A partir daí, a palavra impressa passou a acompanhar a ação pastoral, intelectual e missionária dos monges.

Não se tratava de uma atividade separada da vida monástica. Ao contrário, o livro nascia do mesmo ambiente de oração, estudo e trabalho que caracterizava o mosteiro. O monge que rezava no coro, estudava a Sagrada Escritura, ensinava catequese ou copiava um texto podia também participar da preparação de uma obra destinada a milhares de leitores.

A imprensa, portanto, tornou-se uma espécie de prolongamento da missão monástica.

Se o sacerdote podia anunciar a Palavra diante de uma comunidade, o livro podia levá-la a centenas ou milhares de comunidades. Se o missionário podia visitar uma aldeia, um periódico podia chegar mensalmente às casas daquela mesma aldeia. A palavra impressa adquiria uma capacidade de presença que ultrapassava os limites geográficos do mosteiro.

Foi nesse espírito que a tradição editorial basiliana se desenvolveu e encontrou, ao longo dos séculos, diferentes formas de expressão.

Pochaiv, Vilnius e a tradição da cultura impressa

Entre os grandes centros da tradição basiliana, o Mosteiro de Pochaiv ocupa lugar especial. Durante o século XVIII, sua tipografia tornou-se importante centro de produção religiosa e cultural. Estudos recentes mostram que monges basilianos participavam diretamente da atividade tipográfica, inclusive na composição, correção e preparação das obras. Jovens religiosos podiam aprender o ofício dentro do próprio ambiente monástico, enquanto religiosos mais instruídos participavam da revisão e do controle dos textos.

A tipografia não era, portanto, uma realidade estranha à vida religiosa. Ela estava integrada à organização do mosteiro e chegou a representar uma fonte significativa de recursos para sua manutenção.

Essa experiência demonstra algo fundamental: para os basilianos, a cultura escrita não era vista como simples atividade comercial. Ela fazia parte de uma visão mais ampla de formação cristã e cultural.

Em Vilnius, a tradição tipográfica também ganhou expressão importante. A imprensa basiliana ali organizada desenvolveu-se entre os séculos XVII e XIX e produziu obras em diferentes línguas, incluindo o latim, o polonês, o eslavo eclesiástico e formas da língua rutena. Estudos sobre essa tipografia mostram a participação direta de religiosos basilianos em sua administração e funcionamento.

A diversidade das obras publicadas revela que a preocupação não era apenas devocional. A imprensa também servia à educação, à formação intelectual, à transmissão da tradição cristã e à construção cultural de uma sociedade.

Assim, muito antes de existir a moderna comunicação de massa, os basilianos já haviam compreendido uma verdade que permanece atual: quem deseja formar uma comunidade precisa também cuidar daquilo que essa comunidade lê.

 

Zhovkva: quando a imprensa se transforma em grande apostolado

No final do século XIX, essa tradição encontrou uma nova expressão em Zhovkva, próxima de Lviv. Em 1895 foi estabelecida ali a tipografia basiliana que se tornaria um dos mais importantes centros editoriais da Ordem. A partir daquele momento, a atividade editorial ganhou uma dimensão sistemática e de grande alcance.

A gráfica de Zhovkva não produzia somente livros religiosos. Ali foram publicados periódicos, obras litúrgicas, textos catequéticos, estudos históricos, literatura espiritual e diversos materiais destinados à formação do povo.

Entre essas publicações destacou-se o Misionar, cuja primeira fase está profundamente ligada ao Apostolado da Oração e à pastoral popular. O periódico alcançou uma circulação extraordinária para sua época e chegou a milhares de famílias. Em determinados períodos, sua tiragem atingiu dezenas de milhares de exemplares.

 

  A antiga sala de máquinas da gráfica basiliana de Zhovkva, aproximadamente 1932.

Fonte da imagem: Ordem Basiliana de São Josafat, Ucrânia. A fotografia histórica é identificada pela própria Ordem como a sala de máquinas da gráfica de Zhovkva, por volta de 1932.

A imagem de uma antiga máquina tipográfica basiliana ajuda a compreender a dimensão material desse apostolado. Cada página exigia trabalho. As letras precisavam ser compostas; as páginas, revisadas; a tinta, preparada; o papel, impresso; os exemplares, organizados e distribuídos. Hoje, quando uma mensagem pode alcançar milhares de pessoas em poucos segundos, é difícil imaginar o esforço necessário para produzir um periódico há mais de cem anos. Mas justamente por isso a história da imprensa basiliana possui uma força particular: cada página era fruto de trabalho, dedicação e convicção missionária. A imprensa de Zhovkva também atravessou períodos extremamente difíceis. Guerras, mudanças políticas, perseguições e regimes que procuraram controlar a vida religiosa atingiram diretamente a atividade editorial. A gráfica foi ameaçada, os monges foram perseguidos e muitas publicações tiveram de interromper sua circulação.

Mesmo assim, a tradição não desapareceu. Ela encontrou novos caminhos, novas pessoas e novos lugares.

A imprensa chega ao Brasil

Quando os primeiros padres basilianos chegaram ao Brasil, em 1897, encontraram uma realidade muito diferente daquela que conheciam na Europa. Os imigrantes ucranianos estavam espalhados por diferentes regiões, especialmente no Paraná e em Santa Catarina. Muitas comunidades encontravam-se distantes umas das outras. Havia dificuldades de comunicação, escassez de sacerdotes e, sobretudo, a necessidade de preservar a fé e a identidade cultural em uma nova terra.

Nesse contexto, a imprensa adquiriu importância extraordinária.

Não bastava celebrar a Divina Liturgia. Era necessário também formar o povo. Era preciso oferecer livros de oração, catecismos, textos religiosos, informações, notícias e orientações pastorais.

A primeira grande iniciativa nesse campo ocorreu em 1909, quando o padre Marciano Shkirpan, OSBM, viajou à Europa e adquiriu em Viena uma máquina tipográfica. A máquina foi trazida para o Brasil e instalada em Curitiba. No ano seguinte, começou a circular o periódico ucraniano Prapor, palavra que significa “Bandeira”. Em 1911, a gráfica foi transferida para Prudentópolis.

 

                                                                                                                                                     Pe. Marciano Shkirpan, OSBM      

                                        Missionário basiliano que participou decisivamente da organização das primeiras publicações basilianas no Brasil e da aquisição da máquina tipográfica em Viena, em 1909.

A iniciativa do padre Shkirpan demonstra que a missão basiliana no Brasil não se limitava à administração das comunidades. Desde os primeiros anos havia uma preocupação concreta com a formação intelectual, religiosa e cultural dos imigrantes. A pequena máquina trazida da Europa representava muito mais do que um equipamento. Era uma ferramenta de evangelização.

Missionar: uma revista para alimentar a fé

Depois do Prapor, surgiu o Missionar, ou Missionário, em 1911. Seu caráter era essencialmente religioso e estava especialmente voltado aos membros do Apostolado da Oração. A publicação alcançou rapidamente uma dimensão que ultrapassava as fronteiras brasileiras. O próprio arquivo histórico da Ordem registra assinantes entre ucranianos residentes na Argentina, no Canadá, nos Estados Unidos e até na Europa.

O Missionar entrava nas casas. Chegava às famílias. Era lido por pessoas que muitas vezes não tinham acesso fácil a livros religiosos. Era, em certo sentido, uma presença missionária impres

                                                                                                                                             Padre Rafael Romão Krenêtskei, OSBM

O padre Rafael Romão Krenêtskei, OSBM, ocupa lugar especial nessa história. Nascido na Ucrânia em 1881 e chegado ao Brasil em 1911, tornou-se o primeiro redator do Missionar. A partir de 1913, também passou a exercer a função de redator do Prácia, permanecendo nessa responsabilidade até 1920. A documentação histórica da Ordem registra ainda que o Missionar trazia a intenção do Apostolado da Oração e o santo do mês, entre outros conteúdos espirituais. A figura desses primeiros redatores mostra que a imprensa basiliana não era simplesmente um trabalho administrativo. Era uma extensão do ministério sacerdotal.  O sacerdote que escrevia uma reflexão para o periódico continuava, de certa maneira, seu ministério diante de uma comunidade que não estava fisicamente presente.

 

 

 Máquina de impressão vinda da Alemanha para ajudar nos trabalhos. Prudentópolois.

 

O nascimento do Prácia

No final de 1912 surgiu outro periódico: o Prácia. O nome significa “Trabalho”.

Sua proposta era mais ampla que a do Missionar. Embora conservasse uma orientação católica, procurava oferecer aos leitores notícias e conteúdos de interesse cultural e comunitário.

O próprio desenvolvimento histórico do periódico revela uma compreensão muito importante da missão basiliana: a evangelização precisava dialogar com a vida concreta das pessoas.

O imigrante não era apenas alguém que precisava aprender a rezar. Era também trabalhador, pai, mãe, agricultor, professor, membro de uma associação, cidadão e integrante de uma comunidade cultural. Por isso, um jornal católico podia falar de religião, mas também de cultura, educação, acontecimentos da comunidade, história e vida social.

O Prácia começou com periodicidade quinzenal, passou posteriormente a ser semanal e, nos tempos atuais, possui periodicidade mensal. A própria Ordem registra sua continuidade desde 1912. Há pequenas divergências nas fontes quanto à data exata de seu primeiro número — algumas referências apontam para o final de 1912, enquanto estudos acadêmicos identificam o primeiro exemplar em dezembro daquele ano. Para uma publicação histórica, a formulação mais segura é afirmar que o jornal nasceu em 1912, indicando a data precisa somente quando acompanhada da fonte documental correspondente.

Em 2012 o Jornal comemorou 100 anos de existência e em Prudentópolis aconteceu uma sessão solene na câmera de vereadores. Na ocasião, o então Diácono Estefano Wonsik, OSBM, apresentou um pequeno discurso:

“Boa Noite!

Com grande alegria abrimos hoje a semana da comunidade ucraniana. Para mim foi uma grata surpresa ser convidado para aqui proferir algumas palavras sobre o Jornal “Prácia”, exatamente neste momento da história em que, nós religiosos da Ordem de São Basílio Magno, estamos celebrando 400 anos de fundação de nossa comunidade religiosa, e 120 anos de presença e missão em terras brasileiras. Graças ao esforço e ao espirito corajoso de nossos primeiros missionários, o Jornal “Prácia” continua ainda sob a guarda desta Ordem, o que é motivo de júbilo e de louvores a Deus por, após tantos anos, podermos continuar servindo as necessidades do povo através deste informativo que possui uma bela trajetória.

Convivemos hoje com a assim chamada sociedade da informação, na qual a busca pelas notícias acontece de maneira rápida e imediata. Praticamente quase todos recebem notícias pelo próprio telefone celular, além do que tal aparelho pode enviar e-mails, mensagens, boletins, entre muitas outras possibilidades. Diante de toda essa diversidade, de que maneira se comporta o jornal impresso? No nosso caso, o que existe de diferente no Jornal “Prácia”, que depois de tantos anos ainda atinge a população? O “Prácia” é um jornal que não se assemelha a outros periódicos que conhecemos. As notícias que nele estão contidas não estão nas âncoras dos grandes canais televisivos, mas demonstram particularidades da vida cotidiana dos leitores. O “Prácia” é o Jornal dos Ucranianos e de seus descendentes, o qual, desde 1912 representa um grande tesouro em nossas mãos, tesouro que não deve ser lançado ao vento, e esquecido. Este Jornal mantém um elo entre o país de origem com os descendentes que aqui vivem. Somos privilegiados, contamos talvez com a única fonte de pesquisa para saber sobre a cultura, a religiosidade, a arte, e as tradições ucranianas. Dentre tantas etnias existentes em terras brasileiras, é perceptível o amor à terra de origem por parte dos ucranianos que, após 105 ainda mantêm um jornal escrito também em língua ucraniana. Isso é motivo de glória para Prudentópolis, para os religiosos basilianos, e para todos os descendentes de ucranianos.

É inegável que o “Prácia” faz parte da história do povo ucraniano. Nós, que agora estamos aqui, somos responsáveis em continuar esta história, não podendo incutir em nós o mesmo pensamento de muitos, de que o jornal impresso, em meio a tantas mudanças, já é algo inadequado. Trago aqui uma frase do escritor Mário Quintana – “os piores analfabetos são os que aprenderam a ler, mas não o fazem”. O conhecimento é essencial, e a importância de ler este jornal é indiscriminada em relação ao que pensamos, pois o “Prácia” traz novas expectativas e conceitos, conteúdos específicos que não podem ser encontrados em outros lugares talvez.  A leitura do jornal contribui para a formação da cidadania, preservação de valores, propagação da cultura e da religiosidade do povo ucraniano.

Em nome da equipe de redação do “Prácia”, agradeço aos senhores vereadores por abrirem novamente este espaço a nós, e se me permitirem chamo agora o redator chefe do Jornal “Prácia”, Pe. Tarcísio Zaluski, para uma breve colocação. Obrigado.”

Logo, o redator chefe, Pe. Tarcísio Zaluski, também proferiu sua colocação.

“A história da humanidade é um rio que passa, cujas águas correm e não voltam mais. Pelos caminhos da vida humana, vão passando geração após geração, levando consigo para o esquecimento lembranças pessoais, familiares, nacionais e étnicas, apagando dados históricos da vida de um povo. Sabemos de tudo o que acontece hoje. Mas os meios de comunicação atual não conservam dados para história. Vêm e desaparcem. E o que foi escrito na imprensa não desaparece com as gerações, conserva por séculos as lembranças históricas de um povo e suas conquistas, conserva para muitas gerações dados sobre o passado que já não pode contar com testemunhas vivos. Mais ainda, o que foi escrito no livro, no jornal é muito mais fidedigno do que o falado na rádio ou apresentado na TV, na internet. A imprensa é estável e de longa vida.

Única imprensa ucraniana no Brasil, que nas suas páginas conserva a história centenária dessa etnia neste país – são os periódicos: o bimestral basiliano Prácia e o Missionar.  O primeiro fundado em 1912 e outro em 1911. Ambos vivos e ativos até hoje e testemunhs do passado. Existiam no Brasil ainda outros periódicos que já saíram do prelo que podem completar o que existe em abundância no Prácia.

Estudiosos da história da etnia  ucraniana neste pais não encontrarão fonte mais completa que o Pracia, que registra a história sobre a vida, efemérides, conquistas da etnia ucraniana no Brasil. Nas suas páginas encontramos abundantes informações sobre personagens que construiram a história da etnia ucraniana no Brasil. Sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos consagraram seus talentos, seu tempo e conhecimentos para deixar gravado nesse periódico o que de mais importante acontecia na vida da imigação ucraniana no Brasil. Imigração   pequena, insignificante, mas a seu modo contribuiu e contribue para a cultura brasileira.

O Prácia informava seus leitores sobre a vida da comunidade no Brasil e continua a registrar fatos sobre a cultura, eventos, religiosidade e da contribuição da etnia ucraniana para enriquecer o tesouro cultural do Brasil que,  além das manifestaçoes culturais indígenas locais, na maioria, é um mosáico de tantas culturas europeias, africanas, asiáticas que se fundem numa, na cultira brasileira.

No início do século XX, quando nasciam esses periódicos, o destino espalhou os ucranianos por diversos países, onde assimilaram culturas diferentes e contribuiram para enriquecer outras culturas com a sua.

Prácia, além de oferecer um acervo de dados sobre a vida e ações dos descendentes ucranianos no meio brasileiro, também foi importante meio de coservação da consciência das raizes do povo de origem ucraniana na sua nova pátria, no Brasil.

O surgimento da imprensa basiliana no Brasil não foi acidental, mas surgiu da especialidade da ordem basiliana de anunciar o Reino de Deus e promover a formação culltural do povo através da palavra escrita. Em todos países onde trabalhavam os basilianos, surgia imprensa basiliana, que levava para o povo palavras de conforto, incentivo, oferecia informações gerais políticas, culturais e religiosas, e especialmente sobre a vida da comunidade ucraniana em determinados países. Por exemplo, na Ucrânia existe até hoje o Missionar Basiliano, o Pracia e Missionar no Brasil, Slovo (a Palavra),  na Argentina, Slovo Dobroho Pastyria (Palavra do Bom pastor) nos EUA, Svitlo (A Luz) no Canada, Zapsky Vasylianskoho Tchynu (Anotaçõs da Ordem Basiliana), em Roma e tantos outros praticamente em todos países onde existem descendentes de ucranianos e a Ordem Basilana surgia a imprensa. O Prácia é uma fonte histórica preciosa para o conhecimento da história da comunidade de descendentes ucraianos neste país.

Nesta ocasião, damos graças a Deus e rendemos homenagem a todos, sacerdotes, religiosos, e religiosas e leigos que dedicaram seus talentos e seu tempo para deixar gravada a história da vida da etnia ucraniana nas terras brasileiras e contribuir com o patrimônio da cultura ucraniana no enriquecimento da cultura brasileira e também a todos leitores que durante mais de um século apoiam o Prácia.”

 Pe. Tarcísio Zaluski, OSBM

 

   

                                                                  Comemoração alusiva aos 100 anos do Jornal Prácia em Prudentópolis. 2012

A importância do periódico ultrapassou, com o tempo, o simples âmbito religioso. O Prácia tornou-se memória. Em suas páginas ficaram registrados acontecimentos, pessoas, festas, comunidades, associações, escolas, famílias, mudanças sociais e momentos difíceis vividos pelos descendentes de ucranianos. Ler suas páginas antigas é, de certo modo, voltar no tempo.

Talvez uma das maiores contribuições da imprensa basiliana no Brasil tenha sido a preservação da identidade ucraniana.

Para os imigrantes que chegaram ao Brasil, a língua era muito mais do que um instrumento de comunicação. Ela carregava uma memória. Nela estavam presentes orações, canções, histórias familiares, tradições, nomes de lugares, costumes e uma determinada maneira de compreender o mundo.

Quando uma criança aprendia a ler em ucraniano, não estava apenas aprendendo palavras.Estava entrando em contato com uma herança.Quando uma família recebia o Prácia, não recebia simplesmente um jornal.

Recebia uma ligação com outras famílias, outras comunidades e com uma pátria distante.É por isso que a imprensa ucraniana no Brasil pode ser compreendida como uma espécie de ponte.

Uma ponte entre gerações.Uma ponte entre a Ucrânia e o Brasil.Uma ponte entre a memória e o presente.

E, sobretudo, uma ponte entre pessoas que muitas vezes estavam fisicamente distantes umas das outras.

Estudos e projetos de preservação documental confirmam essa importância. O CEDOC da UNICENTRO, por exemplo, conserva uma coleção de periódicos em língua ucraniana formada a partir de doações relacionadas ao Prácia. O acervo reúne publicações de diferentes países e demonstra a existência de uma verdadeira rede internacional de circulação de periódicos entre comunidades ucranianas.

Assim, o jornal produzido em Prudentópolis não estava isolado. Ele participava de uma rede cultural muito maior.

Quando a palavra foi proibida

A história da imprensa basiliana também conhece o silêncio imposto.

Em 1917, o Missionar foi interrompido em razão da proibição brasileira de publicações em língua estrangeira durante o contexto da Primeira Guerra Mundial, retomando posteriormente sua circulação.

Décadas depois, durante o Estado Novo, as políticas de nacionalização e as restrições às línguas estrangeiras voltaram a atingir duramente a imprensa ucraniana.

O Prácia também sofreu as consequências desse processo e teve sua publicação interrompida entre 1941 e 1946.Esses acontecimentos revelam algo fundamental: a imprensa também pode ser um espaço de resistência cultural. Quando uma língua é proibida de circular publicamente, não desaparecem apenas palavras.

Perdem-se memórias. Quando um jornal deixa de existir, interrompe-se uma conversa entre gerações. Quando uma comunidade deixa de poder publicar sua própria língua, uma parte de sua identidade é colocada em risco. Por isso, a sobrevivência do Prácia possui um significado que ultrapassa a história editorial. Ele sobreviveu como testemunho de uma comunidade que se recusou a esquecer suas raízes.

O jornal como arquivo da comunidade

Com o passar das décadas, os jornais basilianos adquiriram outra função que talvez não pudesse ser plenamente percebida por seus primeiros redatores: tornaram-se fontes históricas.

Hoje, pesquisadores recorrem ao Prácia e ao Missionar para estudar a imigração ucraniana, a religiosidade, as festas, a organização das comunidades, as relações sociais, a educação, a língua e as transformações culturais. Cada página antiga possui informações que muitas vezes não aparecem nos documentos oficiais. Ali estão os nomes das pessoas, fotografias das festas, anúncios, notícias das comunidades, relatos de construção de igrejas, visitas dos sacerdotes, festas dos santos, e a memória de quem já morreu.

Por isso, preservar esses jornais significa preservar a própria história de milhares de pessoas.

A história da imprensa basiliana não terminou com o desaparecimento das antigas máquinas.

Pelo contrário.

Ela continua.

A tecnologia mudou radicalmente. A composição manual deu lugar aos sistemas digitais. A fotografia passou da película para o arquivo eletrônico. O jornal impresso ganhou sua versão digital. As redes sociais passaram a permitir que uma notícia alcançasse imediatamente pessoas que vivem em diferentes países.

Mas a pergunta fundamental continua sendo a mesma:

O que queremos comunicar?

Uma máquina tipográfica antiga e um telefone celular moderno possuem uma diferença tecnológica gigantesca. Mas ambos podem servir à mesma missão: levar uma mensagem às pessoas.

É justamente nesse ponto que a história da imprensa basiliana encontra o desafio do presente.

A comunicação contemporânea oferece possibilidades extraordinárias, mas também apresenta riscos. A velocidade pode substituir a reflexão. A quantidade pode substituir a qualidade. A imagem pode ocupar o lugar do conteúdo. A informação pode ser confundida com formação.

Por isso, o apostolado da comunicação precisa recuperar aquilo que esteve presente desde o início: responsabilidade, verdade, formação e espírito missionário.

Conclusão

Talvez seja possível resumir toda essa longa história em quatro verbos:

Comunicar. Evangelizar. Formar. Preservar.

Comunicar, porque a Igreja precisa encontrar as pessoas onde elas estão.

Evangelizar, porque toda comunicação cristã deve apontar para Cristo.

Formar, porque uma comunidade precisa de conhecimento, consciência e discernimento.

Preservar, porque aquilo que não é conservado pode desaparecer.

A antiga máquina tipográfica de Zhovkva, a prensa trazida para Curitiba em 1909, as páginas do Missionar, os primeiros números do Prácia, as antigas oficinas de Prudentópolis e os atuais arquivos digitais parecem pertencer a mundos completamente diferentes.

Mas todos fazem parte da mesma história.

A história de homens que acreditaram que uma palavra escrita poderia chegar mais longe que sua própria voz.

A história de missionários que compreenderam que evangelizar também significa ensinar.

A história de comunidades que descobriram que preservar a língua era preservar a memória.

A história de uma Igreja que, mesmo diante das mudanças políticas, tecnológicas e culturais, continuou procurando novos caminhos para comunicar a sua fé.

Por isso, quando hoje abrimos uma página de um antigo Prácia, não estamos simplesmente diante de um jornal velho.

Estamos diante de uma testemunha.

Ali estão pessoas que viveram antes de nós.

Ali estão suas preocupações, suas esperanças, suas festas, suas dores, sua fé e sua maneira de compreender a vida.

E quando hoje uma mensagem basiliana aparece em uma tela de computador ou de telefone celular, a história não está sendo abandonada.

Ela está continuando.

A máquina mudou.

O papel pode desaparecer.

A tela substituiu a página.

Mas permanece a missão.

Comunicar para evangelizar.
Publicar para formar.
Preservar para recordar.
Recordar para não perder a identidade.

Essa é a verdadeira história da imprensa basiliana.

E talvez seja também o seu maior desafio para o futuro: continuar fazendo da palavra um instrumento de encontro, da comunicação um serviço e da tecnologia uma nova estrada para que a mensagem do Evangelho continue chegando ao coração das pessoas.

NOTAS

  1. ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Gráfica Prudentópolis. Prudentópolis: OSBM. Disponível em: OSBM – Gráfica Prudentópolis. Acesso em: 9 set. 2026.
  2. ORDEM BASILIANA DE SÃO JOSAFAT. 130 Years of Basilian Publishing: The Legacy of the Zhovkva Printing House and Its Periodicals. 2025. Disponível em: Ordem Basiliana de São Josafat – 130 anos da imprensa basiliana. Acesso em: 9 set. 2026.
  3. ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Basilianos no Brasil. Disponível em: OSBM – Basilianos no Brasil. Acesso em: 9 set. 2026.
  4. ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Pe. Rafael Romão Krenêtskei, OSBM. Necrológio dos Padres e Irmãos da Ordem de São Basílio Magno. Disponível em: OSBM – Pe. Rafael Romão Krenêtskei. Acesso em: 9 set. 2026.
  5. ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Pe. Marciano Shkirpan, OSBM. Disponível em: OSBM – Pe. Marciano Shkirpan. Acesso em: 9 set. 2026.
  6. CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA UNICENTRO. Repositório Digital Brasil/Ucrânia PRESS – O jornal PRÁCIA e a imigração ucraniana no Brasil. Irati: UNICENTRO. Disponível em: CEDOC/UNICENTRO – Brasil/Ucrânia Press. Acesso em: 9 set. 2026.
  7. CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA UNICENTRO. Coleção de Periódicos da Diáspora Ucraniana. Irati: UNICENTRO. Disponível em: Catálogo da Coleção de Periódicos da Diáspora Ucraniana. Acesso em: 9 set. 2026.
  8. ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Encerramento do Jubileu dos 400 anos da OSBM e 120 anos da presença e missão no Brasil. Prudentópolis, 2017. Disponível em: OSBM – Encerramento do Jubileu Basiliano. Acesso em: 9 set. 2026.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Basilianos no Brasil. Prudentópolis: OSBM.

ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Gráfica Prudentópolis. Prudentópolis: OSBM.

ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Pe. Marciano Shkirpan, OSBM. Prudentópolis: OSBM.

ORDEM DE SÃO BASÍLIO MAGNO. Pe. Rafael Romão Krenêtskei, OSBM. Prudentópolis: OSBM.

ORDEM BASILIANA DE SÃO JOSAFAT. 130 Years of Basilian Publishing: The Legacy of the Zhovkva Printing House and Its Periodicals. Zhovkva, 2025.

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA UNICENTRO. Repositório Digital Brasil/Ucrânia PRESS – O jornal PRÁCIA e a imigração ucraniana no Brasil. Irati: UNICENTRO.

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA UNICENTRO. Coleção de Periódicos da Diáspora Ucraniana. Irati: UNICENTRO.

PRADO, Anderson. O jornal ucraniano-brasileiro Prácia: Prudentópolis e a repercussão do Holodomor (1932–1933). São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2017.

VITCHMICHEN, Henrique Schlumberger. O caso Prácia (1941-1946): imprensa estrangeira, repressão e crime idiomático no Estado Novo. Ars Historica, Rio de Janeiro, v. 21, p. 104-123, 2021.

RAMOS, Andrieli Basniak Lopes dos Santos. Bilinguismo e contato linguístico no jornal Prácia no município de Prudentópolis-PR. Guarapuava: Universidade Estadual do Centro-Oeste.

ALMES, Ivan. Practices of Monks in the Pochaiv Monastery Printing House of the 18th Century. Theological and Religious Studies, 2023, p. 63-72.

GETKA, Joanna. Wychowanie młodzieży w ruskojęzycznych drukach bazyliańskich. Estudos sobre as tipografias basilianas e a formação cultural nos impressos em língua rutena.

 

Pe. Estefano Wonsik, OSBM.

 

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