SÃO BASÍLIO MAGNO

1 – A pessoa de São Basílio

2 – A vida para a Igreja

3 – A ação social de São Basílio

4 – Os escritos de São Basílio

 


A pessoa de São Basílio

 

Indiscutivelmente, São Basílio Magno (330-379) pertence ao grupo de elite dos mais eminentes e mais doutos Padres da Igreja. Ocupa seu distinto lugar na história do cristianismo pelo incansável combate pela fé, pelo elevado nível de seus escritos, pelo seu projeto de vida cristã comunitária e, enfim, pelas suas elevadas virtudes. É venerado pela Igreja bizantina em duas datas: 1 de janeiro e 30 de janeiro, compondo, junto com Gregório de Naziano e João Crisóstomo, a grande tríade de Padres e teólogos bizantinos.

Basílio é bizantino de “nacionalidade”, grego de cultura, foi cidadão do futuramente pujante Império Bizantino ainda na infância (s. IV), e membro de uma Igreja que ainda definia seu patrimônio doutrinal. Era a época conturbada dos primeiros Concílios, de enfrentamento das grandes heresias, particularmente do arianismo que negava a divindade de Jesus Cristo.

A pátria de Basílio era a Capadócia, região central do Império Bizantino (hoje Turquia); sua família fazia parte da aristocracia de Cesareia. É certo que sua família já era cristã desde algum tempo: supõe-se que seu avô paterno morreu como mártir durante as perseguições romanas. Dois de seus irmãos também se tornaram bispos: Gregório de Nissa e Pedro de Sebaste. Sendo de família de posses, Basílio recebeu uma educação esmerada: foi enviado para estudar, primeiro na cidade imperial Constantinopla, e depois em Atenas, onde permaneceu 4 ou 5 anos e onde teve a companhia de Gregório de Nazianzo, com quem travou uma sólida amizade que durou até o final da vida.

Retornando de Atenas, Basílio ocupa-se em ensinar retórica em Cesareia. Mas isso dura pouco tempo. Ocorre uma lenta mudança em sua vida. Ele mesmo manifesta uma certa decepção com seus estudos e com a vida que levava, considerada por ele uma “perda de tempo”. Nesse ínterim, ele toma conhecimento do movimento ascético-monástico que se espalhava por todo o Oriente, e também na sua região, a Ásia Menor. Aqui ele conhece pessoalmente Eustácio de Sebaste, um asceta radical e carismático, que liderava o movimento monástico na Ásia Menor e em todo o vasto Império Bizantino. O movimento “eustaciano” causou uma forte impressão em Basílio por sua espiritualidade e pelo rigor de seu ascetismo.

O contato com Eustácio e seus seguidores provoca uma “iluminação” em Basílio e o faz entrar em uma nova fase de sua vida: ele decide aderir ao movimento monástico. Antes, porém, ele quer conhecer o movimento mais a fundo, a fim de tomar inspirações para a vida que pretendia levar. Com esse propósito, empreende uma longa viagem para o Egito, Síria, Palestina e Mesopotâmia, observando in loco o estilo de vida ascética, na sua maioria eremítica.

De volta da viagem, Basílio decide pôr em prática as inspirações tomadas. Seguindo a recomendação do Evangelho, vende algumas de suas posses, distribui aos pobres e segue, junto com sua mãe Emélia, seu irmão Pedro, sua irmã Macrina e mais alguns amigos, para Annesi, um lugar ermo e tranquilo, às margens do rio Íris (chama-se hoje Yesilimark, na Turquia), a fim de iniciar uma nova forma de vida, de vivência radical do Evangelho, de oração e obras de caridade.

A vida para a Igreja

O isolamento de Basílio em Annesi acabou sendo breve. A Igreja o chamava para a ação. Na época, a Igreja do Oriente vivia tempos conturbados, de lutas internas, ocasionadas pelas diferenças doutrinais, principalmente pelas heresias, sendo o arianismo a maior delas.

No ano de 360, atendendo ao convite de seu bispo Diano de Cesareia, Basílio toma parte no Concílio (regional) de Constantinopla, que tratou das graves questões de fé que abalavam a Igreja, no fervo da luta ariana. A partir desse Concílio, Basílio decide dedicar-se integralmente ao serviço da Igreja, à defesa da fé. Isso o faz afastar-se em parte de sua opção inicial, isto é, da vida ascética no isolamento de Annesi. Mas a obra dele, no tocante à vida ascética não é interrompida. Mesmo depois, como bispo, Basílio mantém ligação permanente com as suas comunidades que seguiam seus ensinamentos.

No ano de 365, Basílio é ordenado presbítero pelo novo bispo de Cesareia, Eusébio. Após a morte deste, torna-se seu sucessor no bispado de Cesareia que, naquele tempo, já era uma grande sede, com muitos bispos dependentes, ditos “sufragâneos”.

Como bispo, Basílio entrega-se de corpo e alma à defesa da fé. São Basílio e santo Atanásio de Alexandria são os dois gigantes da época na defesa da reta fé no Oriente. Basílio age intensamente e com destemor: prega, argumenta, escreve, viaja por todo o império, promove debates com teólogos arianos e com outros bispos. Com esse objetivo, Basílio até promove a bispos dois de seus irmãos: Gregório, para a cidade de Nissa, e Pedro para Sebaste. Ficou famoso o episódio de como Basílio enfrentou o próprio imperador Valente na defesa da reta fé.

A ação social de São Basílio

Outro aspecto da personalidade e da obra de São Basílio é a sua solicitude social e, em decorrência disso, sua ação social. Ele é o primeiro bispo da Igreja que se conhece a desenvolver uma ação social.

Essa ação começa com Basílio ainda presbítero. No ano de 369, a região da Capadócia e Ponto foi assolada pelo flagelo da fome em decorrência de uma forte seca, acarretando carestia, colheitas fracas, explosão de preços e ação de aproveitadores. Basílio ficou profundamente sensibilizado pela situação do povo. Ele promove coletas, distribuição de alimentos, funda abrigos para os pobres. Toda essa ação decorria de sua compreensão da caridade evangélica: para ele, esta devia necessariamente materializar-se na ação caritativa e beneficente. E, para ele, a prática da caridade não é só uma responsabilidade de cada cristão individualmente, mas também da Igreja como tal e de seus líderes, os bispos. A ação pastoral dos bispos deve se concretizar na ação social.

Como fundamento teórico para uma ação social, Basílio adota um forte e corajoso discurso social. Marcantes nesse aspecto são as homilias “Deus não é o autor do mal”, “No tempo de fome e seca”, “Derrubarei meus celeiros”, “Sobre os ricos” e outras mais. “O pão que guardaste pertence ao faminto; a roupa que trancas no baú pertence ao homem que não a tem; o calçado que está te sobrando pertence ao que anda descalço; o dinheiro que estás enterrando pertence aos pobres. És injusto na medida daquilo que poderias dar aos outros”. Toda a solicitude socio-caritativa materializou-se na “Basilíade”, uma grande obra desse caráter, um complexo de construções para fins caritativos que, segundo consta, situava-se nos arredores de Cesareia e que Sozómeno, um autor do século V, chama de “cidade dos pobres”. Era uma obra gerida pelo próprio Basílio e pelos seus monges. Segundo o testemunho de São Gregório de Nazianzo (no elogio fúnebre de São Basílio) esse complexo “incluía enfermarias, hospedarias para forasteiros e todo um aparato para destituídos, que deveria ser provido pelo estado, mas que não o fazia; tudo foi construído pelo dinheiro arrecadado dos ricos por meio da eloquência e do exemplo de Basílio; tudo era atendido pelos seus ascetas, e ele próprio reservava para si o trabalho mais repulsivo: tratar dos leprosos”.

Faltam maiores informações sobre as reais dimensões dessa obra de Basílio e de seu destino. De qualquer maneira, trata-se de um marcante testemunho do gênio multifacetado do grande santo capadócio. Basílio e o monaquismo (link para a página do monquismo…)

Os escritos de São Basílio

Como pessoa de elevado nível intelectual, versado tanto na ciência profana, como pelo fato de ter bebido em profusão da sabedoria divina diretamente da Sagrada Escritura, urgiu São Basílio a comunicar a ciência sagrada à Igreja e ao mundo sob a forma escrita. As obras de São Basílio são um grande tesouro que ele legou à Igreja não só oriental, mas à Igreja toda. São Basílio escreveu muito e tudo o que ele escreveu constitui uma fonte preciosa de doutrina e de espiritualidade à disposição da Igreja de todos os tempos.

As obras de São Basílio podem ser assim divididas:

1. Obras dogmáticas. Tratam sobre questões teológicas ou sobre a doutrina da fé da Igreja. Apresentam-se como elaborações doutrinais sobre a Santíssima Trindade, sobre a pessoa de Jesus Cristo (cristologia), sobre o Espírito Santo (pneumatologia) e sobre a Igreja (eclesiologia).

São duas grandes obras dogmáticas de São Basílio:

“Contra Eunômio”: caracteriza-se como uma obra de defesa da fé contra a heresia do arianismo. Basílio faz aqui uma vigorosa defesa da doutrina do Concílio de Niceia, afirmando a igualdade de natureza entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Combate também o “sabelianismo”, outra heresia da época, que afirmava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são “modos”, “aspectos” ou “faces” do mesmo Deus, e não pessoas distintas. É a obra mais profunda de São Basílio no que tange à especulação teológica.

“Sobre o Espírito Santo”: Nesse tratado, Basílio defende a divindade do Espírito Santo, sua igualdade de natureza, ou “consubstancialidade”, com o Pai e o Filho, contra teses arianas e de outras heresias que negavam a existência do Espírito Santo como pessoa da Santíssima Trindade.

2. Homilias. São Basílio era um exímio orador, tinha um magnífico dom da palavra. Legou-nos por escrito várias de suas homilias. Dois conjuntos de homilias se destacam: “Hexámeron”: um conjunto de 9 homilias sobre a criação, em forma de comentários filosófico-teológicos sobre as primeiras páginas da Bíblia.

“Sobre os Salmos”: um conjunto de 15 homilias sobre diversos salmos. Para Basílio, o livro dos Salmos é o mais importante do Antigo Testamento. Os salmos servem tanto para ensinar, porque neles estão contidos profundos ensinamentos de caráter moral, como também são formas de oração, na sua diversidade: louvor e glória a Deus, orações penitenciais, de contemplação das obras de Deus… O canto dos salmos constituiu o embrião da oração oficial da Igreja, o Ofício Divino.

Há ainda outras 23 homilias sobre diversos temas particulares: panegíricos-louvores a mártires, sobre a penitência, contra a avareza, a usura…

3. Obras ascéticas. Fazem parte dessa categoria, que traz ensinamentos sobre a vida moral e espiritual de um cristão, as obras: “Sobre o Juízo”, “Sobre a Fé”, “Sobre o Batismo”, “Ética” (ou “Regras Morais”), “Grande Asketikon” (ou “Regras Extensas”) e “Pequeno Asketikon” (ou “Regras Breves”).

As duas últimas obras se constituíram no manual fundamental para o movimento monástico, de caráter comunitário, que vigora no Oriente, com grandes influências também no Ocidente. Não são “regras monásticas” no sentido próprio, como geralmente se supõe: são antes orientações espirituais, que São Basílio tira diretamente da Sagrada Escritura para aqueles que buscam uma vida de autêntica perfeição cristã.

4. Obra pedagógica. “Discurso aos Jovens”: É um pequeno escrito, no qual Basílio trata da relação entre a literatura profana pagã e a formação cristã: como os jovens cristãos, fazendo uma boa seleção, podem tirar bom proveito da leitura dos clássicos greco-romanos, filósofos, poetas e outros escritores. Em tudo isso, Basílio pretende explicar que certas obras de autores pagãos são boas e podem ajudar na formação moral dos jovens cristãos.

5. Epistolário – cartas. São mais de 350 cartas de São Basílio que se preservaram, com uma diversidade de conteúdo: teologia, espiritualidade, requerimentos a autoridades, aconselhamentos a indivíduos, cartas de relação de amizade, etc.

As cartas de São Basílio são fontes preciosas para o conhecimento tanto da personalidade de São Basílio como da situação histórica da Igreja do Oriente no século IV, sobre a organização das dioceses, sobre a disciplina eclesiástica daquele tempo.

6. Liturgia. A Igreja bizantina celebra, em determinadas datas do ano, uma Liturgia eucarística com o título “Divina Liturgia de São Basílio Magno”. Muitos críticos veem nessa Liturgia realmente a mão de São Basílio, outros duvidam. É claro que a suposta autoria de São Basílio se refere apenas ao núcleo central da Liturgia, a anáfora. Outras partes são fruto de uma longa evolução.

Cabe observar que a Igreja copta no Egito também celebra uma “Divina Liturgia de São Basílio Magno”, mas que é bastante diferente da bizantina.